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Tomando um trago já no ventre materno
Data: 29/01/2007 | Fonte: Fonte: Vita Sana Magazin-nº. 5 de 1991

Tomando um trago já no ventre materno

Ninguém é capaz de dizer exatamente quantos nenês nascem com o sinal de droga no rosto: lábio superior reto e extremamente fino, nariz largo, olhos pequenos e reduzidos por dobras no lado interno da pálpebra.
O que pesa muito mais é o retardo mental vitalício da criança que — como embrião indefeso — foi condenada a compartilhar a bebida.

Na Alemanha, cerca de 3 recém-nascidos em 1.000 vêm ao mundo com essa doença incurável, a síndrome do alcoolismo fetal. Hoje, 30 mil jovens são incapazes de levar uma vida normal. Perderam essa chance no ventre materno. Isso soa extremamente duro, mas todo esforço em atenuar o fato está errado em vista desse sofrimento evitável. Há milênios sabemos que o álcool pode ter conseqüências perigosas durante a gravidez. Na Bíblia, no Velho Testamento, um anjo adverte a mãe de Sansão a não tomar vinho durante a gravidez. Há 200 anos, uma comissão britânica tachou os recém-nascidos de mães alcoólatras de "famintos, atrofiados e defeituosos". Há duas décadas, médicos franceses e americanos documentaram e divulgaram as conseqüências do abuso de álcool durante a gravidez. Na mesma época, os pediatras Hermann Löser e Frank Majewski observaram um "faro" específico nas mães de bebês prejudicados. Fazendo perguntas sobre problemas com álcool, obtiveram a confirmação. Desde então, prestaram atenção à manifestação de problemas causados pelo álcool quando examinavam seus pequenos pacientes.

Além da má-formação dos olhos, dos rins, do esqueleto e dos genitais, constataram defeitos cardíacos em 30 de cada 100 crianças com a síndrome do alcoolismo fetal. Hermann Löser observou 200 dessas crianças nos anos seguintes e acompanhou seu desenvolvimento até a idade adulta. Há vários anos ele ajuda a "Iniciativa de pais de crianças prejudicadas pelo álcool" como conselheiro médico e engajou-se na pesquisa e divulgação: "Não estamos saindo do lugar", diz o pediatra. "Desde que conhecemos a doença, não foi possível diminuir o número de recém-nascidos atingidos". Os motivos disso são:

1. Poucos médicos decidem conversar com suas clientes sobre o hábito de beber.
2. Muitas mulheres não sabem, ou reprimem o conhecimento, que as crianças, vítimas do álcool, são prejudicadas pela vida toda.
3. Nas garrafas e latas de bebidas alcoólicas faltam advertências, que são obrigatórias, por exemplo, nos Estados Unidos.
4. São raros os locais adequados para o tratamento de gestantes dependentes do álcool. Quando existe, o tratamento ocorre, muitas vezes, somente depois do parto.
5. Não é raro a mulher dependente de álcool deixar temporariamente de menstruar. Ela só percebe que está grávida quando sente os movimentos da criança.
6. Nesse momento, as malformações orgânicas e os danos cerebrais já ocorreram.
O recém-nascido, que precisa "beber junto" no ventre materno, muitas vezes nasce prematuro, com peso bem abaixo do normal. Tem dificuldade em respirar espontaneamente. Muitos morrem nos primeiros dias após o parto, como o bebê da clínica de Essen que chegou ao mundo com uma taxa de 1,3 ppm no sangue. A extensão do dano causado pelo álcool está estreitamente relacionada com a duração e quantidade da ingestão de álcool — e, sobretudo, com a capacidade do organismo feminino de digerir o álcool. Isso quer dizer que:
O tempo e a regularidade de ingestão de álcool aumentam os danos provocados no fígado. Ele demora cada vez mais para digerir o álcool. Como o álcool passa rapidamente para o sangue, o drinque da mãe já atua sobre o bebê após 10 minutos, com o mesmo valor em ppm. Mesmo pequenas quantidades de álcool prejudicam o embrião.
Por esse motivo, os filhos de mães que bebem moderadamente sofrem de problemas de concentração e dificuldades comportamentais. O fígado imaturo do feto produz menos enzimas que decompõem o álcool do que o fígado da mulher adulta. Durante a ingestão regular de álcool pela mãe, o órgão ainda imperfeito do feto é completamente sobrecarregado e o efeito devastador do veneno é mais prolongado, continuando ainda quando a gestante voltou a estar sóbria. O abuso de álcool não prejudica apenas o fígado; as conseqüências desse abuso se alastram até o cérebro. Em geral, esse fato não é levado em consideração durante o consumo regular de álcool! ALT="criança marcada pela droga" align=left>Sob a influência do álcool, o desenvolvimento do cérebro em formação fica prejudicado. As circunvoluções cerebrais são menos pronunciadas e numerosas células nervosas ficam atrofiadas. Conseqüentemente, essas células dispõem de uma quantidade menor de sinapses — as conexões tão importantes para a transmissão de impulsos. Uma rede incompleta de neurônios conduz a informações errôneas e reações estranhas. Mais estranhos são os problemas na alimentação, que só são superados através de refeições mínimas durante meses e anos — em casos graves, somente por meio de uma sonda nasal. Crianças com síndrome do alcoolismo fetal recusam o alimento porque lhes falta a vontade normal de comer. Muitas vezes, comer e beber lhes causa medo e mal-estar. Seu tecido adiposo não é bem desenvolvido e, apesar de muitos cuidados e carinho, baixo peso e altura são a regra. Nervosismo inexplicado frente a determinados ruídos, irritabilidade excessiva e receio de qualquer contato físico, hiperatividade, sensação de náusea frente a cheiros comuns, bem como dificuldades na fala são problemas freqüentes. Muitas crianças com síndrome do alcoolismo fetal vivem em creches ou com pais adotivos, porque os pais verdadeiros não cuidam (ou não podem cuidar) delas. Muitas vezes, as pessoas que cuidam dessas crianças não sabem nada da doença, que só é diagnosticada a tempo em um quarto dos recém-nascidos. Quando ficam sabendo dos problemas, caem das nuvens.
Além dos receios por causa do comportamento estranho, as perspectivas futuras da criança prejudicada pelo álcool são mais do que graves:
Apenas cerca de 17% conseguem acompanhar o currículo normal. A metade tem que freqüentar uma escola para crianças com dificuldades de aprendizagem. 1/5 vão a uma escola para deficientes. Uma em cada oito crianças com síndrome do alcoolismo fetal não pode freqüentar uma escola.
Na maioria das crianças com síndrome do alcoolismo fetal, as deformações faciais desaparecem quando ficam mais velhas. Também a hiperatividade muitas vezes diminui. Mas a deficiência mental as acompanha pela vida toda. Conseguir ser independente, aprender uma profissão ou achar um parceiro é menos uma questão de cuidados intensivos — depende da gravidade do dano alcoólico que sofreram inocentemente.
Gestação e álcool são incompatíveis — não há meio termo. Não existe uma "dose limite" no consumo de álcool. A mulher que deseja ter um filho deve se abster do álcool já antes e durante a concepção.


 

 
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